Devo ter caído, batido com a cabeça num objeto duro, perdido os sentidos. Quando dei por mim, encontrava-me num planeta sem nome, estranho, habitado por personagens que nunca vira nem conseguia compreender. Não é que se tratasse de um planeta assim tão diferente da terra, com uma orografia diversa das que conheço, apresentando até bastantes semelhanças com os locais que frequento habitualmente. Através da janela (encontrava-me na sala de estar, de costas para a televisão) via automóveis a circularem na rua, em filas compactas, a largarem fumo pelos escapes, numa disputa de condutores que se cumprimentavam com impropérios mudos. A simpatia das pessoas limitava-se a uns acenos com a mão, a um curto menear de cabeça, a um inexpressivo mexer de lábios. Percebi, como se fosse dotado de mágicos poderes, que as frases com que se brindavam, acompanhadas de leves sorrisos, não correspondiam a qualquer cumprimento, a uma palavra de simpatia, antes insultavam, desejavam que o outro se esbarrasse contra um poste. E ninguém reagia ou compreendia.

Saí de casa. O ar daquele planeta não era assim tão diferente do ar da minha rua. Passeei ao acaso, atravessando jardins, espreitando o interior dos cafés, examinando o comportamento dos polícias. Ninguém me via, ninguém me queria ver, ignorando-me, tornando-me invisível. Sentia-me vivo, mas habitava um mundo onde as relações humanas tinham falecido.

O telemóvel vibrou-me no bolso, entregava-me uma mensagem escrita. Quem me contactava não tinha o mínimo interesse em saber se eu estava bem ou mal, se me alimentava convenientemente. Recordava-me, simplesmente, um desconto que ainda não utilizara numa grande superfície comercial que frequento.

No tribunal devia ser diferente, com deliberações que anulassem a apatia reinante. Entrei. Um homem de cinquenta e dois anos esforçava-se por convencer o juiz a retirar-lhe vinte anos à idade, a reconhecê-lo como mais novo no cartão de cidadão. Dizia que, com aquela idade, ninguém lhe dava emprego, que o achavam demasiado velho para trabalhar, que para a reforma era demasiado novo; que não entendia porque é que se deixava as pessoas mudar de sexo, alterar o nome e se recusava uma simples redução de idade. Ninguém sairia prejudicado, continuava, pois os anos por si perdidos não iriam sobrecarregar ninguém.

E o juiz, sem legislação nem argumentos capazes de contrariar o requerente, ordenou que ao homem fossem retirados os anos por este considerados excessivos.

Mundo bizarro, este!

Joaquim António Leal

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