Foram trinta e nove as pessoas encontradas mortas dentro dum camião, na Grã-Bretanha. Os jornais ocuparam um quarto de página com a notícia; as televisões um minuto ou dois; nós, leitores sensíveis, espectadores interessados em participar dos infortúnios do mundo, dissemos “coitados!”, ao mesmo tempo que encolhíamos os ombros e mudávamos de canal para conhecer os últimos resultados do futebol. Afinal tratava-se apenas de chineses, indivíduos por quem não nutríamos nenhuma particular afeição. Não se pense que somos pessoas com corações de pedra, desprovidas de valores, de espírito de solidariedade, pois, em abono da verdade, recordo que, quando há uns tempos correu mundo a imagem duma criança afogada na travessia do Mediterrâneo a caminho do nosso continente, chorámos. É claro que lágrimas teriam secado à nascença se o afogamento tivesse contemplado apenas os seus pais, africanos, negros, na cor e nos costumes tão diferentes de nós. Deixassem-se ficar nas suas terras e nada disto lhes aconteceria, e até podia acontecer que não morressem de fome nem atravessados pelas balas ou baionetas dum inimigo a quem nunca fizeram mal.

Os poderosos da Europa levaram o espetro da guerra a todas as nações (distantes) onde achavam que os seus interesses económicos podiam perigar, com isso criando instabilidade, miséria, fome. Quem, em consciência, poderá condenar aqueles que procuram comida, paz e segurança num outro ponto deste globo onde, pretensamente, a economia é global?

Os europeus (e não nos podemos excluir) colonizaram todos os restantes continentes, aproveitando-se das riquezas que por lá existiam, exploraram os povos nativos, escravizando-os, mas agora recusam-se a recebê-los.

Na Grã-Bretanha pereceram, congelados no interior dum camião frigorífico, 39 chineses, mas não são os chineses que estão em causa. O que aqui importa, e que tem de nos chocar, é o facto de sabermos que, quase diariamente, se afogam demasiados seres humanos a tentarem escapar da morte certa em certos países e os milhões, com predominância para as crianças inocentes, que definham à fome por esse mundo fora. E não, não é uma fatalidade, porque no mundo há meios e recursos para evitar esta tragédia.

 

Joaquim António Leal

 

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