PELO DIREITO À LIBERDADE

OPINIÃO

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Adoro a rebeldia das pessoas que não se acomodam aos grilhões. É o seu sangue a reclamar pela liberdade de circular pelo corpo inteiro, sem ter de se submeter aos caprichos dos pulmões. E por falar em pulmões, lembro-me da Covid-19, dessa invenção dos governos para nos tolherem os movimentos e a liberdade de circulação. Vêm com aquela conversa, pianinha, de que temos de usar máscara e manter distâncias de dois metros entre nós. O que eles querem bem eu sei: nada de conspirações (o afastamento é para ninguém contar segredos) e deixem-se amordaçar, como se fazia ao gado para não comer o milho ao passar pelos campos.

No sábado passado empolguei-me a ver toda aquela gente (eram mais de cinquenta!) a desfilar em Lisboa, de caras descobertas, os narizes a bufarem e a aspirarem as excrescências aéreas dos camaradas, num festim de criaturas invisíveis. Qual vírus, qual carapuça! Com tal aparato e convicção dos manifestantes o bichinho não se atreveria a aproximar-se. É assim mesmo que se faz: com pompa, descontração e descaramento natural.

É claro que vieram logo os invejosos cascar-lhes através das redes sociais: que eram uns ignorantes, uns inconscientes, uns assassinos, uns extremistas sem o mínimo senso moral. Não se aperceberam, esses críticos indocumentados, que esta boa gente se limitava a lutar pelos direitos de todos nós, o direito à liberdade de decidirmos o que nos desse na real gana, sem máscaras a ocultar-nos a expressividade dos semblantes, ainda que de vampiresca satisfação. Acusam-nos de promoverem a disseminação do vírus, de contagiarem irresponsavelmente pessoas de frágil saúde, como os velhinhos, antecipando-lhes a morte. Como se a nossa liberdade de ação devesse ser comprometida por gente improdutiva, e que ainda por cima já não tem condições para continuar a respirar. Já se esqueceram como era antigamente? Antigamente é que era bom: faleciam os fracos e sobreviviam os mais fortes. Era a livre concorrência a funcionar.

E por onde andaria, naquela hora, o Dito-Cujo, do Partido-Que-Diz-O-Que-As-Pessoas-Gostam-De-Ouvir? Talvez se tenha escondido por detrás duma máscara, permanecendo à sombra duma árvore para ver no que isto ia dar. É que este, mesmo silente, tem muitas e variadas formas de falar.

Joaquim António Leal

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