16/01/2026, 0:00 h
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Educação Opinião ROSÁRIO ROCHA
EDUCAÇÃO
Por Rosário Rocha (Professora do AE Frazão)
Triste infância
Comento muitas vezes que a infância das nossas crianças atualmente é muito dura! As crianças passam mais tempo na escola do que muitos adultos no trabalho. Enquanto outrora íamos à escola metade do dia e o restante era ocupado com tarefas ou brincadeiras no campo, acompanhados dos avós, pais, outros familiares ou até vizinhos, atualmente entra-se na escola de manhã e sai-se à noite. No final do dia, ainda se insiste nos trabalhos de casa (como se o tempo de escola não chegasse- muitas vezes uma tortura) e que ocupa o pouco tempo que haveria livre, até porque a maioria das crianças/jovens se dedica a outras atividades desportivas ou artísticas após a escola (e bem!).
O dia na escola, regra geral, é passado em sala de aula, com as crianças sentadas. Tempo para brincar? Meia hora de manhã e meia hora à tarde, em que talvez metade seja gasta a lanchar. A hora do almoço sempre permite mais um bocadinho de brincadeira, mas nunca é o suficiente.
Recreios e brincadeira
É urgente que se promova a brincadeira dentro ou fora dos portões da escola, durante o dia letivo. É importantíssimo que as crianças tenham tempo de explorar a natureza, de aproveitar a brincadeira para aprender.
Muito se fala em bullying e nas poucas competências sociais que as nossas crianças vão demonstrando. A Escola é o espaço por excelência para desenvolver imensas competências, nomeadamente as sociais e emocionais. Contudo, é necessário espaço e tempo para tal. Para tal, devem ser promovidas atividades, dinâmicas e espaços diversificados, promotores do desenvolvimento global das nossas crianças e jovens.
Experiência em Arreigada
No Centro Escolar de Arreigada, e também no de Frazão (embora ainda numa fase mais precoce), estamos a tentar reinventar a escola fora das salas de aula. Em Arreigada, já há uns anos que as crianças do 1º ciclo, a partir do momento que entram no portão da escola, circulam de forma autónoma, sem necessitar de campainha nem de filas para irem para qualquer sítio.
Este ano têm um sistema montado de jogos nos corredores e alpendre, os quais são jogados com supervisão, mas sem orientação. São as crianças que decidem como e onde passam os tempos livres.
As crianças do JI têm também, nos espaços de recreio, caixotes com brinquedos, blocos de madeira ou simples tubos onde podem fazer montagens ou construções, e ainda triciclos, bicicletas e trotinetes. Também estas crianças, mais novas, podem escolher as suas brincadeiras. Não tenho dúvidas de que muitas aprenderão a andar de bicicleta no recinto escolar.

Recreio naturalizado
Sabemos nós como as famílias e as crianças não têm tempo para aproveitar a natureza. Às vezes, não é falta de vontade, é mesmo falta de tempo! Mas, se as nossas crianças passam tanto tempo no espaço escolar, a Escola tem que procurar que o espaço de recreio seja o mais natural possível e potenciador de experiências diversificadas, ativas e promotoras do desenvolvimento físico, social e emocional.
Em Arreigada, com a preciosa orientação do Observatório Ambiental, da Câmara Municipal, estamos a transformar uma parte da terra batida e do piso com “ervas” num verdadeiro parque infantil desafiante. São vários os “equipamentos” já construídos: baloiços, balancés, biblioárvore e sala de aula ao ar livre; cabanas de madeira e um percurso elevado para treinar o equilíbrio; charco e Bug- Hotel para animais silvestres. Temos ainda uma horta pedagógica e, tanto esta como o charco, contaram com a construção de uma cerca de madeira morta. Tudo foi construído quase na totalidade com materiais de origem natural e local, nomeadamente resultantes de podas e abates de árvores em mau estado.
Há ainda mais equipamentos para serem construídos, mas para já o espaço já está muito aprazível.
Confesso que seria bom chegar a um espaço com estes equipamentos prontos, mas, do meu ponto de vista, apesar do resultado ser fantástico, é ainda mais interessante o processo: a construção de tudo pelos e com os alunos. Orientados, cortaram, serraram, martelaram, construíram! Construíram o seu espaço! Sujaram-se bastante, é verdade! Mas também aprenderam a trabalhar com materiais e a construir com as suas próprias mãos! Isto também é escola! Aliás, isto é e deve ser a Escola na sua essência: promover aprendizagens em contexto, ativas e significativas!
Resultados esperados
Esperamos sinceramente ter crianças mais dinâmicas, mais autónomas, mais conscientes também no que ao ambiente diz respeito. Seria interessante fazer um estudo de caso sobre as competências e destrezas promovidas e desenvolvidas neste tipo de espaços. Se eu estivesse a frequentar um Mestrado, seria certamente uma tese onde apostaria.
Para já, há resultados que são facilmente visíveis e que nem precisam de estudo: as nossas crianças estão muito mais felizes! Outro resultado já constatado é a diminuição de conflitos. Aquelas “queixinhas” de empurrões e brincadeiras corpo a corpo (porque era o que se podia fazer), já dificilmente acontecem. Miúdos felizes são, sem dúvida, menos conflituosos.
Próximos passos
Há ainda mais “obra” para fazer, mas para já também é importante consciencializar os pais das mudanças que estamos a efetuar. É preciso aceitar que as crianças não irão “assim tão limpinhas” para casa, pois vão brincar e trabalhar na Natureza e não “no escritório”. Uma cozinha de lama (que saudades!) fará parte das nossas experiências pedagógicas.
Passo a passo continuamos, com a colaboração de pessoas que sonham como nós (e que nos ajudam a concretizar os sonhos), e estamos certos que, no final do ano, teremos um espaço único a nível nacional, numa escola pública, que servirá, certamente, de motivação a que muitos outros projetos surjam, potenciando a melhoria da aprendizagem e do desenvolvimento global das crianças e jovens.
Quando tivermos o projeto concluído, dar-vos-ei conta do facto e faremos questão de fazer uma inauguração digna de todo o processo e do resultado final.
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