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Gazeta Paços de Ferreira

25/09/2026, 0:00 h

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Aprender fora dos portões

Educação Opinião ROSÁRIO ROCHA

EDUCAÇÃO

É conhecido este meu gosto por andar sempre a “laurear a pevide” com os meus alunos. De facto, gosto de aproveitar o máximo possível situações em que possa sair da sala de aula e da escola.

Por Rosário Rocha (Professora do AE Frazão)

 

No ano anterior estive com dispensa da componente letiva e, portanto, sem turma. Contudo, aproveitei para dinamizar vários projetos com as outras turmas da escola ou do Agrupamento. Foi muito interessante.

 

No entanto, o que me faz sentir mesmo realizada é ter uma turma e cá estou a começar de novo com uma “ninhada de 24 pintainhos”.

 

 

Vindimas e desfolhada

 

Na primeira semana de aulas, aproveitamos uma atividade da época: a vindima. O sr. Carvalho teve a amabilidade de nos deixar participar na sua colheita de uvas. Para a maioria dos alunos foi a sua primeira experiência. A mim, menina da aldeia, trouxe-me memórias de outros tempos em que também fazíamos vindimas e aos mais novos cabia a tarefa de apanhar os bagos que ficavam para trás, pois não se podia desperdiçar nada. Relembrou-me, ainda, da alegria que se vivia no lagar a pisar as uvas e, depois, de como ansiávamos por um bocadinho de vinho doce.

 

Atualmente já não é bem igual. O processo é diferente, o ralador de uvas facilita o trabalho e os lagares provavelmente quase não existem. Mas vindimar continua a ser um ato coletivo onde várias pessoas colhem as uvas e partilham conversas e histórias. Foi isso que fizemos também.

 

Esta semana iremos a uma desfolhada e, acredito, será mais uma atividade que poucas crianças terão já experimentado. Mas farão estas atividades parte do currículo escolar?

 

 

 

 

Aprendizagens diversificadas

 

Claro que não vem em nenhum manual que temos que ir a desfolhadas ou vindimas. Mas o currículo deve ser diversificado, contendo aprendizagens formais e informais. As vindimas e desfolhadas fazem parte das atividades económicas locais.

 

Estamos sempre a referir que os miúdos passam muito tempo na escola e não têm grandes vivências. Participar neste género de atividades proporciona aos alunos aprendizagens muito diversificadas. Conhecem as atividades locais e compreendem os processos de produção. É comum a ideia de que o leite, o vinho, a farinha e afins aparecem milagrosamente num pacote ou embalagem no supermercado, mas não se compreende como chegaram até lá. Participar nos processos primários de plantação ou colheita ajuda a compreender a produção.

 

Mas as aprendizagens vão além disso. Pessoalmente há uma vantagem enorme de deixarem os pequenitos vindimar ou fazer desfolhadas: é o desenvolvimento da motricidade. Mexer, desfolhar, cortar…são movimentos que desenvolvem a destreza manual tão necessária por exemplo para escrever. Controlar o movimento da mão é essencial. Como é essencial o trabalho em equipa, em comunidade. Tal como é essencial fazer percursos a pé, em segurança, e que parecem ser tão estranhos para os miúdos que se deslocam essencialmente de carro ou autocarro. Como é agradável encher as ruas de gargalhadas, de vozes de crianças e de uns “bons dias” com quem se cruzam. Também isso é devolver vida à comunidade.

 

 

Aproveitar as oportunidades

 

De facto, o currículo escolar está demasiado exigente para as crianças. Muitos conteúdos são abstratos e é penoso ensiná-los a miúdos pequenos que ainda não têm maturidade para os aprender. Perde-se muito tempo sentado numa mesa e cadeira a “bater no ceguinho”. Muita ficha, muitos cálculos, muita cópia, muito massacre… Há conteúdos que realmente só assim. Mas muitos outros podem e devem ser aprendidos cá fora, com atividades práticas, no dia-a-dia.

 

As crianças precisam movimentar-se, mexer-se, e é violento estarem sentadas tantas horas. Então, há que aproveitar as oportunidades do exterior para aprender.

 

 

Para refletir

 

Vou partilhar uma situação que me tem intrigado: há cada vez mais crianças com sensibilidades sensoriais. Ainda nas vindimas percebi a aflição de alguns com o facto de terem as mãos sujas ou pegajosas- isso estava a incomodá-los. E porquê? Porque não estão habituados, porque vivemos quase obcecados com a limpeza das mãos e do corpo.

 

Fala-se muito da saúde mental e, se repararmos, muitas terapias passam pelo domínio do corpo e pelo contacto com a Natureza. Muitos terapeutas aconselham os pacientes a fazer yoga na natureza, caminhadas, a ter contacto com a “Mãe Terra”.

 

Não será isso que devemos devolver aos nossos pequenos para evitar problemas futuros? Permitir-lhes o contacto com o solo, com o sujar-se, com o habituar-se às texturas riquíssimas que a Natureza nos dá? Quem sabe teríamos menos problemas sensoriais…e talvez mentais. Menos proteção e mais exploração… Mentes mais ativas; corpo e mente mais saudáveis certamente.

 

 

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