17/10/2026, 11:20 h
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Cultura Opinião Literatura Abílio Travessas
CULTURA
Por Abílio Travessas (Colunista e Professor aposentado)
Prosas Bárbaras e Aldeia de Eça e Aldeia – terra, gente e bichos de Aquilino, são livros que me trazem memórias impressivas no espaço/tempo em que foram lidos. As Prosas Bárbaras, no âmbito da disciplina de Português, antigo sétimo ano, estão associadas ao meu quarto, fim de tarde luminoso e sereno, aldeia embalada pelo rumorejar marinho… Tivesse eu sido bafejado pela ventura de transmitir a alegria que aqueles textos trouxeram àquela alma juvenil, que só os grandes conseguem! Eça é um dos três portugueses, além de Camões e Pessoa, que o crítico norte-americano Harold Bloom escolheu para a galeria dos génios da literatura.
O livro de Aquilino leva-me aos meados dos anos oitenta, regressado a Gandufe, aldeia na Beira-Alta, cansado de Coimbra, a estagiar, área de direito e economia, na Escola Secundária de Carregal do Sal. Leitura à luz de candeeiro, casa revelando o abandono de anos, fins de semana entusiasmantes e ingénuos na recuperação de vinha velha pela retancha ou mergulhia – “operação de enterrar o mergulhão (vara de vide que se mete na terra para criar raízes sem a desprender da planta-mãe e deixando livre a sua parte terminal)”- Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, com a orientação paciente e sábia do Sr. Miguel que ia contando estórias da vida de gaibéu na “baixa” alentejana. Esta é uma receita para as dores de ouvidos, ditada com o aparecimento de ninhada de ratinhos recém-nascidos, no calor da terra levantada pela enxada: pega-se numa frigideira velha já sem uso nela se pondo os ratinhos com um fiozinho de gordura para não agarrar, vai ao lume, mexendo-se até que se deduza a uma papa mais ou menos líquida que se guarda e servirá para deitar uma gotinhas no ouvido doente. Remédio santo!
Regresso sempre ao mestre beirão agora com a incursão pelas “aventuras maravilhosas de D. Sebastião depois da batalha com o Mirabolim”. Começa com o extraordinário relato da nefasta batalha, o seu epílogo, o desespero do rei rodeado dos fiéis nobres que o defenderam até ao fim; termina com o rei Filipe II de Espanha, 1º de Portugal, em agonia mergulhada nas memórias do esplendor do império, recebendo o sobrinho a relatar a extraordinária desventura desde Alcácer. Os considerandos sobre os portugueses e castelhanos do rei vencedor e moribundo serão os de Aquilino?

O livro, de leitura absorvente, terminei de madrugada. Difícil, vocabulário a exigir dicionários que sempre me acompanham, admirável pela cultura clássica, da geografia à história, do conhecimento da civilização berbere e da guerra, não apenas religiosa, com os cristãos.
O retrato do rei aventureiro traz algo novo para além do que é geralmente sabido. Educado em meio muito religioso e de cavaleiros pela avó, Catarina da Áustria, regente, fisicamente desproporcionado pelo exagero do braço direito que o fazia temível guerreiro, misógino, pai que não conheceu morto pela diabetes, avô, D. João III, tio inquisidor-mor derrotado pelas tropas do duque de Alba
- de que cor é o medo, Duque?
provocou o jovem e pouco avisado nosso rei num dos banquetes que a embaixada portuguesa ofereceu, procurando o apoio do tio,
- da cor da prudência, senhor!
Conselho avisado da velha raposa, conselheiro de Filipe, que Sebastião ignorou.
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