06/10/2026, 10:55 h
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Cultura Opinião Abílio Travessas
CULTURA
Por Abílio Travessas (Colunista e Professor aposentado)
Viriato é o primeiro documentado, azar de se rodear de companheiros a soldo do invasor romano, que não pagava a traidores. Dona Tareja, mãe do nosso primeiro, escolheu mal o partido, “os cavaleiros do Sul do Douro (que) apoiavam a rainha e Fernando Peres de Trava por oposição aos ricos-homens e infanções de Entre Douro e Minho, que apoiavam o infante” (D. Afonso Henriques, José Mattoso) e o azar bateu-lhe em S. Mamede, batalha agora glorificada por “patriotas” encabeçados por Portas. D. Sancho, o 2º, perdeu-se nos azares do amor por Mécia Lopes e o irmão Afonso aproveitou para lhe usurpar o trono. Será azar o enamoramento?
Leonor Teles: o azar começou com o grande cronista Fernão Lopes a chamar-lhe aleivosa, nome muito feio para uma mulher tão bonita a enfeitiçar o formoso Fernando. A intenção do cronista era “patriótica”, era necessário legitimar as pretensões do infante João e conseguiu.
…uma ideologia única era imposta: o Infante D. Henrique, virgem e sábio, é que lançara e dirigira a expansão, a expansão era uma cruzada contra Mafamede e sua seita, em prol da Cristandade – in A Expansão quatrocentista portuguesa, Vitorino Magalhães Godinho.
Um dos maiores vencidos da nossa história foi o infante D. Pedro, o 2º da Ínclita Geração, o Das sete partidas, o de Alfarrobeira, “Regente de Portugal, Duque de Coimbra, Senhor de Montemor-o-Velho, de Aveiro e de Buarcos, de Tentúgal, Penela e Lousã, de Ílhavo e de Mira.” Sofia de Mello Breyner Andresen, Pranto pelo Infante D. Pedro das Sete Partidas: “Nunca choraremos bastante nem com pranto/Assaz amargo e forte/Aquele que fundou glória e grandeza/E recebeu em paga insulto e morte” e Pranto pelo dia de hoje: “Nunca choraremos bastante quando vemos/ O gesto criador ser impedido/Nunca choraremos bastante quando vemos/ Que quem ousa lutar é destruído/ Por troças por insídias por venenos/E por outras maneiras que sabemos /Tão sábias tão subtis e tão peritas/ Que não podem sequer ser bem descritas.
A história é madrasta para os vencidos, ai deles! diziam os romanos. Aqui, os vencedores são muitos, começando pelo menor, o genro, rei D. Afonso V, espírito fraco, influenciável, atreito aos jogos dos bastidores da corte, comandados pelo inimigo principal, o irmão bastardo do Infante, Afonso, iniciador da casa de Bragança; o outro irmão, tão incensado na história oficial, o navegador, cuja fama para o futuro vem, no essencial, do cronista Gomes Eanes de Zurara, homem da sua casa, que lhe traça o retrato, para o bem e para o mal – primeiro negreiro da história-pátria, descrição pungente da chegada dum lote de escravos a Lagos, partição afastando homens das mulheres, pais de filhos, o infante, montando garboso cavalo, superintendendo, escolhendo os melhores “espécimes”.

O vencido, o duque de Coimbra, azar dum homem viajado, conhecedor de reinos mais prósperos, aconselha o irmão-rei, Duarte, na Carta de Bruges “onde diagnostica os principais problemas do reino de Portugal e aponta alguns remédios para os ultrapassar”. Figura principal da corrente que defendia a procura de territórios, viagens na busca de novas rotas de comércio, é vencido pela velha aristocracia feudal encabeçada pelo irmão Afonso, interessada na conquista e saque no norte de África, política que o Africano levou a peito, antes de o filho, D. João, Príncipe Perfeito, ter continuado a política ultramarina dos tios-avôs, Pedro e Henrique.
Regente de Portugal na menoridade de Afonso V “promoveu a primeira e verdadeira colectânia global de legislação geral do Reino de Portugal: as chamadas Ordenações Afonsinas de 1446, assim baptizadas devido a terem sido naturalmente atribuídas ao jovem rei D. Afonso V, … mas inspiradas e redigidas pelo Infante D. Pedro e pelos legistas de que estava rodeado”. Alfredo Pinheiro Marques, autor de A Maldição da Memória do Infante D. Pedro e as origens dos descobrimentos portugueses, livro de que transcrevo alguns dados sobre o tema, escreve: “Consegue-se, hoje em dia, no séc. XX, imaginar o que seria um país onde quase não havia leis escritas e gerais? Era sem dúvida um campo de batalha (social) particularmente favorável ao feudalismo e à nobreza senhorial”.
A Batalha de Alfarrobeira determina a derrota do Infante. As tensões foram-se avolumando depois da retirada da corte, já D. Afonso V a governar, para as suas terras do ducado de Coimbra, Tentúgal, Paço no caminho para Montemor-o-Velho, agora abandonado e em ruínas. D. Pedro defendia uma política, definida na carta que enviou ao irmão, em que tentava “controlar os abusos do senhorialismo que impediam o fomento demográfico; a codificação jurídica e a reforma da justiça para limitar os abusos feudalizantes, reprimindo os excessos senhoriais; resolução do problema de Ceuta, sumidouro de gente e de armas e de dinheiro”. A oposição venceu e o irmão, dito o navegador, não fez tudo para o salvar; deixado o corpo do Infante insepulto no campo de batalha, devorado pelos cães. Só as diligências da irmã, Infanta Isabel de Portugal, casada com o duque de Borgonha, Filipe o Bom, pôs fim a tanto ódio. Tragédia que se repetiu com o filho, Carlos , O Temerário, morto em batalha contra o rei Luís XI, A Raposa, também deixado aos lobos.
O Infante D. Fernando, o Santo, abandonado e morto em Fez, também vítima da luta entre as duas facções, dum lado D. Pedro, apoiado pelo irmão D. João e, do outro, a velha aristocracia, D. Henrique e Afonso com o apoio do papado, a impedirem o resgate do infortunado irmão, refém após o desastre de Tânger, caucionando a entrega de Ceuta.
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