05/09/2026, 0:00 h
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CULTURA
Por Telmo R. Nunes
Ao aprofundar a informação disponível sobre ele, percebemos que estávamos diante de um nome maior do naturalismo português, mas, incompreensivelmente, desconhecido pelo mundo cultural açoriano atual, salvo honrosas exceções, sobre as quais nos debruçaremos de seguida.
Francisco Arruda Furtado nasceu em Ponta Delgada, em setembro de 1854 e com vinte e dois anos trabalhava já na Repartição de Fazenda de Ponta Delgada. Por essa altura, foi convidado por José do Canto para desempenhar funções de escriturário na sua casa comercial, trabalho que veio a exercer por quase uma década. Foi colaborador e apoiante de Carlos Machado, com quem se relacionou bastante, fruto de interesses comuns, contribuindo sobremodo para a fundação do Museu de Ponta Delgada, em 1880. Fez parte integrante do grupo de naturalistas açorianos, que veio a organizar-se em torno desta instituição. Recorde-se que, ainda hoje, o Circuito de História Natural (que apresenta uma coleção de base naturalista) deste Museu é um dos melhores e mais completos do país. Dada a sua reconhecida competência na área, em 1885 viajou para Lisboa, passando a desempenhar funções profissionais no Museu de Lisboa, na Escola Politécnica.
Foi seguidor das teorias de Charles Darwin, de quem se confessava grande admirador e a sua tenacidade e capacidade de observação e interpretação dos fenómenos naturais permitiram-lhe desenvolver uma vasta obra científica, especialmente na área dos moluscos. Este micaelense, natural da Fajã de Baixo, foi membro honorário da Philosophical Literary Society de Leeds, em Inglaterra e da Sociedade de Geografia de Lisboa. Ademais, foi proposto por Barbosa du Bocage, para membro da Academia das Ciências de Lisboa, o que não chegou a acontecer por motivo de morte, a 21 de junho de 1887, com apenas trinta e três anos de idade.
Com as suas pesquisas e labor, foram poucos os que procuraram manter o nome deste grado naturalista português à tona da memória: Luís M. Arruda é um desses nomes. O Professor Emérito da Universidade de Lisboa, organizou e coordenou dois grandes volumes sobre Francisco Arruda Furtado, um com toda a sua epistolografia e outro com toda a sua obra, tendo sido ambos publicados pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada. É no primeiro dos tomos, dedicado à vastíssima correspondência do naturalista, onde podemos encontrar seis cartas dirigidas a Charles Darwin e quatro respostas deste importante naturalista ao açoriano. Não sendo coisa de somenos importância, considerando o destinatário das missivas, não podemos deixar de nos espantar, e sobretudo de nos interrogarmos sobre a forma como, em pleno século XIX, isolado a viver numa ilha mais ou menos rural, agravado pelas dificuldades de comunicação sentidas então, terá conseguido um fajanense autodidata (!) tomar conhecimento e aprofundar estudos sobre o trabalho de Darwin. Mesmo sendo seu contemporâneo, Darwin era britânico e, como sabemos, vivia constantemente em viagem. (Leia-se a este propósito o texto do Professor Onésimo Teotónio Almeida “Devolvido À Sua Terra”, que serve de prefácio ao livro de Luís M. Arruda, Obra Científica de Francisco Arruda Furtado).
Relativamente à obra de Arruda Furtado, podemos adiantar que é vasta e surpreendente, sobretudo pela qualidade que lhe reconhecem os seus pares.

Um dos seus trabalhos mais reconhecidos e justamente aquele que nos encaminhou até ele, é Materiaes Para O Estudo Anthropologico Dos Povos Açorianos Observações Sobre O Povo Michaelense, de 1884, um estudo antropológico muito completo sobre os micaelenses de final do século XIX. No prefácio desta sua obra, Arruda Furtado afirma que o estudo do meio assume muito interesse em qualquer estudo antropológico e, no caso concreto de pontos isolados e/ou ilhas no meio dos grandes mares ou oceanos, territórios agrestes, cercados por escarpas íngremes, essa preponderância ganha uma maior incidência. Aliás, o autor vai um pouco mais longe e afirma mesmo a primordial importância do estudo do meio nestes casos, em concreto: “Dando o primeiro logar ao estudo do meio, não é porque exageramos a sua importância”.
Mesmo antes de concluir o trabalho a que se propunha, e de alcançar alguns resultados que o satisfizesse, assumia a convicção de que contribuía sobremaneira “para o conhecimento geral da espécie humana, principalmente para o conhecimento dos povos primitivos dos quaes o camponez tem por toda a parte as maiores probabilidades de ser também o representante”. Constata-se, pois, que no final século XIX, os Açores, e concretamente São Miguel, a mais desenvolvida das ilhas açorianas, vivia essencialmente do setor primário, deduzindo-se também que ao lavrador estava reservada uma agricultura e uma pecuária muito rudimentares, sem grandes desenvolvimentos tecnológicos ou mecânicos, eventualmente com algumas alfaias muito rudimentares, e muito dependentes do trabalho braçal. Por esta altura, na ilha de São Miguel, e de acordo com o Censo de 1878 habitavam cerca de 120.000 habitantes, o que perfaz uma densidade populacional de 140 pessoas por Km² que, segundo Arruda Furtado, “é uma soffrivel densidade para uma pequena ilha completamente explorada, exclusivamente agrícola, e, ainda mais, reduzida quasi á cultura do milho”.
Ainda no século XIX, e numa radiografia às “Condicções actuaes de existência”, Arruda Furtado não deixa de salientar as queixas pelas condições de vida de que então dispunham. Todavia, assume que nem todas têm razão de existir; que, “na verdade, estão ainda muito longe de ser desgraçadas”, e que muitos dos micaelenses que se queixavam eram aqueles que ainda tinham arreigados à pele os privilégios que os colonos primitivos vieram encontrar na ilha. Num exercício retrospetivo, reconhece que os primeiros colonos foram abandonados (certamente pela metrópole), sobre um solo horrorosamente vulcânico, mas de uma fertilidade fabulosa, que receberam de forma gratuita ou a troco de uma insignificância.
Segundo Arruda Furtado que os “michaelenses dispõem d’uma indole muito melhor do que os outros açorianos. Elles são robustos, vagarosos mas aturados no trabalho, activos nas sementeiras e nas colheitas, e, se são rotineiros e muitas vezes cabeçudos na rotina, fizeram adaptações indispensaveis ás particularidades do solo e cultivaram com o maior cuidado e aproveitamento”. Foram, portanto, audazes, e como a necessidade aguça o engenho, foram as dificuldades encontradas nos solos e no clima a estimular a inteligência, a criatividade e o desenvolvimento de novas práticas agrícolas e mesmo de engenhos de superação.
Por tudo o que fez, Francisco Arruda Furtado foi um homem à frente do seu tempo, e merece, pois, entrar no diálogo cultural da região e do país.
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