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Gazeta Paços de Ferreira

16/06/2026, 10:14 h

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Humberto Delgado na Póvoa de Martins da Fonte

Cultura Opinião Abílio Travessas

CULTURA

Por Abílio Travessas (Colunista e Professor aposentado)

 

“Gramofone”, João Carlos Calisto ao leme, (mais João Gobern, conhecedor da música portuguesa, há outros), trouxe Manuel Alegre aos microfones da rádio, Antena 1, a falar da sua poesia musicada e cantada por grandes nomes, Adriano, Cília, Amália, Zeca, João Braga, Luísa Basto – “Não se prende o pensamento”. Meu General, leve o meu filho deste ditador!, súplica de pai na recepção em Coimbra, (o Hotel Astória com placa documental, ali perto da Estação Nova), multidão maior do que no 25 de Abril, opinião do poeta.

 

Para o que aconteceu na Póvoa de Varzim – necessária uma pesquisa na imprensa da época – temos o testemunho do advogado averomarense, José Martins da Fonte que aqui trago em dois requerimentos. No dirigido ao “Exmo Senhor Comandante da Polícia de Segurança Pública”, o advogado relata com pormenor os acontecimentos que tiveram na Praça Marquês de Pombal o palco principal. “Os inimigos da candidatura daquele general, desordeira e antipatrioticamente, pretenderam desorganizar a cívica manifestação (Humberto Delgado pretendia colocar um ramo de flores no monumento aos mortos da Grande Guerra) a coberto da presença de inúmera polícia e de personalidades de destaque da União Nacional, propositadamente vindos do Porto para assistir (?) àquela manifestação, que não lhes dizia respeito”.

 

“… talvez pelo ambiente de provocação criado pela presença de arruaceiros que propositadamente fretaram uma caminheta no Porto, acobertados pela comparência de figuras responsáveis da União Nacional, da cidade do Porto e desta vila, a Polícia de segurança pública exorbitou das suas funções, agredindo barbaramente os cidadãos pacíficos que aplaudiam o General do Activo, candidato à mais alta magistratura da Nação e facilitando a acção dos agentes perturbadores da ordem.”

 

 

 

 

Também o participante “foi inesperada e barbaramente agredido pelos agentes, na cabeça e arremessado ao chão”, pelo que pede que “tome medidas enérgicas e urgentes para apuramento dos responsáveis da agressão”.

 

O 2º requerimento, dirigido ao Presidente da Câmara da Póvoa de Varzim, começa por afirmar que “na sua maioria esmagadora, anseia por uma substituição, pacífica e legal, do regime que nos oprime e ofende a nossa dignidade de homens livres, por uma democracia, onde todos caibam, mesmo até os homens da União Nacional, que tam cobarde e indignamente teem espesinhado a liberdade dos seus concidadãos.”

 

Verberando o comportamento dum Presidente, “não eleito pelos poveiros, mas nomeado pelo Governo”, Martins da Fonte “dirige-se, pois, a Vª Exa, como directamente ofendido, para lhe significar o seu mais veemente e indignado protesto, certo de que traduzo o sentir de toda a gente boa desta terra. Assim não vale Sr. Presidente.

 

Póvoa de Varzim, 15 de Maio de 1958

 

Não sendo o meu pai um oposicionista ao governo estadonovista, um sentir de contestação nunca me deixou. Com catorze anos recordo muitos episódios da campanha e há uma imagem que perdura nas minhas melhores recordações: enquadrado pela entrada clássica da minha escola primária de Refojos, onde teve lugar a assembleia de voto da freguesia de Aver-o-Mar, um representante da lista do general, braços erguidos, grita: “Ganhamos!”

 

 

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