06/06/2026, 9:44 h
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Opinião Opinião Politica Partido Socialista
OPINIÃO POLÍTICA
Por João Pavão (Militante da Juventude Socialista de Paços de Ferreira)
Nas eleições legislativas de 1995, foi eleito deputado à Assembleia da República pelo Partido Socialista, pelo círculo eleitoral do Porto, exercendo funções entre outubro de 1995 e outubro de 1999. No Parlamento, integrou o grupo de deputados ligados à Juventude Socialista e destacou-se na defesa de causas fraturantes para a época, como a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, os direitos das pessoas homossexuais e a despenalização das drogas leves. Nesse período, a Juventude Socialista era liderada pelo Sérgio Sousa Pinto.
Mas aquilo que mais me enche de orgulho é saber que havia algo nele que transcendia a política. Era respeitado não apenas dentro do seu próprio partido, mas também pela oposição. Num tempo em que a política tantas vezes se fecha em trincheiras, ele conseguia conquistar consideração para além das diferenças ideológicas.
Isso leva-me a refletir sobre o estado da política nos dias de hoje. Parece que passamos mais tempo a procurar culpados a discutir quem fez melhor ou quem nos deixou no lodo do que a construir soluções. Apoia-se por conveniência, e quando algo corre mal, rapidamente se apontam dedos ou se viram costas.
Contaram-me que, no tempo de Pedro Pinto como presidente da Câmara, as assembleias eram palco de debates acesos, com divergências claras e firmes. Mas, no final, muitos desses protagonistas encontravam-se no Café Teles, em Freamunde, para partilhar uma cerveja e continuar a discutir — com a mesma intensidade, mas com respeito e camaradagem.
Hoje, sinto que essa capacidade de discordar sem destruir é cada vez mais rara.

O Sérgio Silva poderia ter tido um futuro ainda mais brilhante na política. Tinha capacidade, reconhecimento e espaço para crescer. Mas, a certa altura, decidiu fechar portas às oportunidades que se lhe abriam. Não por falta de ambição mas porque nunca foi movido pelo ego. Talvez por humildade. Talvez porque soube sempre distinguir poder de propósito.
Quando perguntei a Jamila Madeira sobre ele, respondeu-me sem hesitar: “O Sérgio era um grande amigo do seu amigo. Sempre pronto a ajudar.” E, no fundo, essa frase diz mais sobre quem ele era do que qualquer cargo que tenha ocupado.
Disseram-me, uma vez, algo que nunca mais esqueci sobre o Sérgio: “Por detrás de um homem de bom coração, havia também um lado que se retraía, que sofria e que sentia as suas próprias fragilidades.”
E talvez seja isso que melhor define a sua humanidade. Porque por trás da firmeza, das convicções e do respeito que conquistou, existia alguém profundamente sensível. Alguém que sentia — e muito.
Hoje, mais do que recordar o deputado ou o autarca, recordo o homem. Como sobrinho, levo comigo mais do que o orgulho no percurso político que construiu: levo o exemplo de integridade, de coragem nas convicções e de respeito por quem pensa diferente. Ensinou-me, mesmo sem grandes discursos, que a firmeza não exclui a sensibilidade, que é possível fazer política sem perder a humanidade, sem alimentar egos e sem transformar adversários em inimigos. Mostrou-me que o poder só faz sentido quando está verdadeiramente ao serviço dos outros e que o carácter vale sempre mais do que qualquer cargo.
Como cidadão, sinto gratidão. Como pessoa, fico com o exemplo. E esse — o legado do Sérgio — permanece.
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