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Gazeta Paços de Ferreira

06/06/2026, 9:50 h

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Ainda nem entrámos oficialmente no verão e Portugal já regressou às imagens habituais: temperaturas extremas, alertas de incêndio e avisos para comportamentos de risco.

Por Filipe Rodrigues Fonseca (Engenheiro Informático e Dirigente do Livre Vale do Sousa)

 

Todos os anos repetimos este ritual, como se estivéssemos perante acontecimentos extraordinários. Mas já não estamos. O calor extremo, os incêndios e a vulnerabilidade do território deixaram de ser exceções; são a nova realidade. O problema é que continuamos a responder-lhes como se fossem temporários.

 

A crise climática já não se discute no futuro. Está presente nas cidades sobreaquecidas, nos trabalhadores expostos ao calor extremo, nas escolas sem condições térmicas adequadas e nos sistemas de saúde pressionados por fenómenos extremos. Adaptar o país não é apenas uma questão ambiental: é uma questão económica, social e de proteção civil. Continuar a planear infraestruturas, serviços públicos e cidades para um clima que deixou de existir é insistir numa política de atraso.

 

Portugal continua a ter dificuldade em aprender com as próprias catástrofes. O chumbo da proposta para uma comissão parlamentar de inquérito às catástrofes revelou precisamente isso. Perante eventos que expuseram fragilidades profundas na gestão do território, na coordenação institucional e na prevenção, recusou-se criar um espaço formal para avaliar decisões, identificar falhas e retirar conclusões. A aprendizagem institucional não pode depender da memória mediática de cada verão. Avaliar o que falhou não é procurar culpados, é evitar repetir erros.

 

 

 

 

E repetimos erros porque continuamos a ignorar o território. O abandono do interior, a concentração de serviços e investimento no litoral, o envelhecimento populacional e a falta de oportunidades económicas criaram paisagens mais vulneráveis ao fogo e comunidades menos resilientes. Falar de incêndios sem falar de habitação, transportes, serviços públicos ou coesão territorial é discutir apenas sintomas. Um território sem pessoas, sem investimento e sem gestão contínua torna-se inevitavelmente mais frágil.

 

Todos sabemos que haverá mais ondas de calor e mais eventos extremos. A questão política já não é se eles virão, mas se continuaremos presos ao ciclo anual de emergência, combate e esquecimento. Preparar o país para um clima diferente exige mais do que meios de combate reforçados no verão. Exige prevenção, investimento público, capacidade de aprender e coragem para mudar prioridades antes da próxima crise, não apenas depois dela.

 

 

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