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Gazeta Paços de Ferreira

28/08/2026, 0:00 h

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Mais um ano letivo

Educação Opinião ROSÁRIO ROCHA

EDUCAÇÃO

Estamos prestes a começar mais um ano letivo. A Educação Pré-Escolar e o Ensino Básico (até ao 9º ano) terão início entre os dias 11 e 15 de setembro. Já o Ensino Secundário, a partir do 10º ano, começará a 21 de setembro.

Por Rosário Rocha (Professora do AE Frazão)

 

Mudanças na educação

 

Todos os anos há mudanças e o próximo ano letivo não é exceção. Já se sabe que o uso dos telemóveis será proibido até ao 9º ano.

 

Há também alteração na legislação da Educação Inclusiva, mas só deverá entrar em vigor talvez no início de 2027, o que será um problema, uma vez que o novo modelo começará a ser implementado já com um período do ano letivo decorrido.

 

Outra alteração neste ano letivo é a introdução de um novo modelo de concurso de professores. Nenhum concurso serve a todos e provavelmente com o novo modelo acontecerá o mesmo. Nos últimos anos tem-se feito sentir a falta de docentes e este ano não será diferente. E, por isso, haverá uma alteração nas habilitações para a docência, permitindo que licenciados em áreas científicas possam suprir falta de professores nalgumas áreas.

 

 

O principal problema

 

Do meu ponto de vista, o maior problema na educação é, sem dúvida, a falta de recursos humanos. Nos últimos anos tem-se falado na falta de docentes e, se nem todos sentimos, é porque vivemos no Norte, pois no Sul e zona de Lisboa é uma realidade que já se sente bastante. Todos fomos tomando conhecimento pela comunicação social que há turmas que durante o ano letivo não tiveram professores em determinadas disciplinas durante todo o ano ou quase.

 

Esse problema está anunciado há alguns anos, quando muitos docentes abandonaram o ensino e se estabeleceram noutras profissões. Era previsível quando não houve formação que pudesse suprimir as aposentações futuras. E ainda não chegamos ao auge do problema, mas lá chegaremos brevemente. Só para enquadramos e percebermos, no ano de 2025/26 reformaram- se 3295 docentes e adiaram a reforma mais de 2000, o que poderá indiciar que neste ano letivo as aposentações poderão rondar ou até superar os 4000 docentes.

 

Segundo dados do Ministério será necessário recrutar cerca de 20 000 docentes até 2029/30 e 39 000 até 2034/35. Segundo dados divulgados sobre a entrada nas universidades para o ano letivo que iniciará, terão sido colocados 1302 estudantes para uma licenciatura de Educação Básica, ocupando 97% das vagas disponíveis. É fácil perceber que mesmo que fossem formados 2000 docentes por ano, até 2029 nunca teríamos os 20 000 necessários.

 

É fácil perceber que este problema deveria ter sido antecipado e começado a ser solucionado pelo menos há 5-10 anos atrás. Mas nessa altura andava o governo às avessas com os professores e quase ninguém queria concorrer a cursos que envolvessem docência.

 

 

 

 

Burnout na docência

 

O burnout, termo que se usa cada vez com mais frequência, é o esgotamento profissional profundo causado por vários motivos. Mas esse burnout influencia também a falta de docentes, pois verificando-se um envelhecimento na classe, é mais fácil que esse esgotamento aconteça e leve a baixas médicas, resultando em menos docentes no exercício de funções.

 

Quais são os motivos que levam ao burnout na docência? São vários, mas do meu ponto de vista são essencialmente os seguintes: excesso de burocracia, gestão de conflitos e dispersão de funções.

 

Quando comecei a lecionar, há 29 anos, o meu tempo era gasto essencialmente a dar aulas e fora das mesmas a preparar material didático. Atualmente não é bem assim… Durante as aulas é necessário gerir todo um ambiente educativo que mudou completamente, muito por culpa das diferentes medidas que foram sendo introduzidas na educação. Não digo que foram erradas, mas…

 

Quando se gosta muito de ensinar, o que cansa mesmo são os entraves ao desempenho da tarefa. São os relatórios constantes que são necessários para as dificuldades de cada criança; são os encaminhamentos e as reuniões formais com todos os agentes e mais alguns (principalmente aqueles que nada vão acrescentar e que são só de gabinete); são as justificações constantes que têm que se dar a cada pai, que o faz insistentemente por email, por mensagem, ou até presencialmente na hora da entrada ou saída da escola; são as inúmeras tarefas que assume um docente e que o afasta da essência do processo de ensino-aprendizagem. E a cereja no topo do bolo é mesmo a seguinte: a responsabilização do docente quando há falha no processo. Regra geral a culpa é sempre do docente que não conseguiu que a criança aprendesse, se portasse bem, etc…

 

Resumindo: a responsabilização, com implicações, é quase sempre unilateral- do docente. E é isso que cansa e desgasta e provoca um esgotamento e falta de realização profissional. Afinal a paixão pelo Ensino fica abafada por tudo o resto.

 

Para finalizar, e como estamos prestes a iniciar um novo ano letivo, deixo um conselho aos pais: não gastem a energia dos professores, com questionamentos constantes; confiem e colaborem! Ninguém questiona o médico sobre a medicação que dá; apenas colaboram na administração da mesma, confiando que fará efeito.

 

Aos meus colegas docentes também deixo um conselho que digo constantemente: olhem para cada aluno como se fosse vosso filho e façam por ele o que fariam pelo vosso. Nem sempre conseguimos fazer dos filhos o que queremos, mas pelo menos tentamos e não desistimos, e isso é que importa!

 

Aos alunos: aproveitem a oportunidade de aprender, nem todos a tiveram. Ser estudante é a vossa profissão: desempenhem-na com brio.

 

Vem lá mais um ano letivo e que seja profícuo para todos.

 

 

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