01/02/2026, 0:00 h
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OPINIÃO
Por Carlos Dias (Licenciado em Ciências Sociais e Políticas)
Um esquecimento coletivo, social e, acima de tudo, político. Enquanto celebramos avanços, inaugurações e promessas voltadas para o futuro, esquecemo-nos de quem construiu o presente em que hoje vivemos.
As políticas públicas têm sabido olhar para as crianças, e ainda bem. Há investimento em berçários e infantários, manuais escolares gratuitos, refeições garantidas, transportes assegurados. Tudo isso é justo, necessário e digno. Mas por que razão esse mesmo cuidado não se estende aos nossos idosos? Por que razão quem deu a vida inteira ao trabalho, à família e à sociedade é deixado à margem quando mais precisa?
Faltam lares. Faltam vagas. Faltam condições. Há idosos que passam os últimos anos da sua vida à espera de um lugar que nunca chega, presos a listas intermináveis ou entregues a famílias exaustas, sem apoio, sem descanso e sem alternativas. Há idosos que vivem com pensões mínimas, obrigados a escolher entre medicamentos ou comida, entre fraldas ou eletricidade.

Lembramo-nos de fornecer livros às crianças, mas esquecemo-nos de garantir medicamentos gratuitos aos idosos. Organizamos transportes escolares, mas ignoramos o transporte para consultas, tratamentos e cuidados básicos daqueles que já não conseguem andar sozinhos. Há campanhas, discursos e fotografias para o futuro, mas quase nenhuma lágrima pública pelo passado que envelhece diante dos nossos olhos.
E no entanto, são eles a nossa memória viva. São eles que carregam histórias, sacrifícios e conquistas que hoje parecem dadas como garantidas. Cada idoso esquecido é uma biblioteca a arder em silêncio. Cada abandono é uma falha moral que nos diminui enquanto sociedade.
Cuidar das crianças é investir no amanhã. Cuidar dos idosos é respeitar o ontem. Não pode haver um sem o outro. Uma sociedade que abandona os seus idosos é uma sociedade que perde a alma. E talvez o maior sinal de progresso não seja como tratamos os que começam a vida, mas como amparamos os que chegam ao fim dela.
Porque envelhecer não deveria ser sinónimo de solidão. E viver muito não deveria ser castigado com o esquecimento.
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