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Gazeta Paços de Ferreira

14/02/2026, 0:00 h

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O Estado Sob Destroços: A Tempestade Kristin e a Crónica de uma Incompetência Anunciada

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OPINIÃO POLÍTICA

O nosso país acordou a 28 de janeiro de 2026, perante um cenário aterrador, fruto da violência extrema da tempestade Kristin.

Por Celso Leal (Vice-Presidente da Juventude Socialista de Paços de Ferreira)

 

Este fenómeno meteorológico, marcado por chuvas intensas e rajadas de vento que fustigaram inúmeras regiões de Portugal, acabou por expor as lacunas de um Estado que, entre a burocracia e a ausência de uma visão estratégica, parece ter-se demitido da sua função primordial: proteger efetivamente os cidadãos. 

 

Enquanto as águas galgavam inúmeras ruas de norte a sul do país, tornava-se evidente a incapacidade do Governo em cumprir com as suas responsabilidades fundamentais. Todavia, esta inércia tem raízes bem mais profundas, precedendo largamente o período sombrio que acabámos de enfrentar. Historicamente, o nosso país tem o hábito de tratar eventos cientificamente previstos, com recurso a modelos de alta precisão, como se fossem surpresas absolutas e inevitáveis. Por essa razão, importa reconhecer que a meteorologia não é apenas um exercício especulativo, mas sim, uma ciência suportada por dados e avisos que devem informar e orientar a ação política face a novas adversidades. 

 

O ordenamento do território, por exemplo, afirma-se como um problema estrutural que tem permitido a perpetuação da vulnerabilidade das infraestruturas existentes, ao longo do tempo. Em vez de investir na execução de obras estruturais de drenagem e no reforço de encostas, capazes de mitigar potenciais inundações, o Governo opta por uma lógica reativa de gestão da calamidade, optando pelo anúncio mediático de pacotes de apoio que, como se sabe, muitas vezes nunca chegam a quem realmente necessita. 

 

 

 

 

Mais grave ainda é a demora do Governo em ativar o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, sob o pretexto de uma autossuficiência que a realidade desmente a cada hora que passa. Enquanto as equipas no terreno manifestam cansaço, o Governo hesita em solicitar apoio internacional. Esta decisão não foi técnica, mas sim, uma tentativa de evitar a perceção pública de fragilidade, à custa do sofrimento prolongado das populações. 

 

Todas estas falhas convergem para uma erosão profunda do contrato social. Perante uma carga fiscal persistentemente elevada, é legítimo que os cidadãos questionem a função e a utilidade do Estado quando este se revela incapaz de assegurar a prestação dos serviços mais básicos. Instala-se, assim, um divórcio evidente entre a retórica governamental e a realidade vivida por muitas famílias portuguesas, que se sentem progressivamente abandonadas. A exigência de formulários e inúmeros comprovativos para aceder aos fundos de emergência disponibilizados, é uma segunda tempestade imposta a estas vítimas, o que revela uma insensibilidade latente por parte de quem nos governa. 

 

A tempestade Kristin foi apenas mais um alerta de que o nosso país não poderá ser dirigido apenas com comunicados de imprensa e estados de alerta. Exige-se uma reforma que passe pela descentralização real de poderes e de competências, pela modernização tecnológica e, acima de tudo, por uma humildade política que coloque o bem-estar e a segurança dos cidadãos acima da imagem mediática do Governo.

 

 

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