06/10/2026, 10:59 h
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OS NOSSOS NO PARLAMENTO
Por Humberto Brito (Deputado à Assembleia da República pelo Partido Socialista)
Há momentos em que uma economia parece sólida à superfície, mas começa a dar sinais de mudança por baixo. Portugal está num desses momentos. O emprego continua elevado, as contas públicas permanecem equilibradas e o PRR foi executado. Não estamos perante uma economia em crise. Mas também não devemos confundir os bons indicadores de hoje com uma garantia sobre amanhã.
Karl Polanyi escreveu, em A Grande Transformação, que o trabalho, a terra e o dinheiro não são mercadorias como as outras. Quando estas três dimensões entram simultaneamente sob pressão, as sociedades sentem-no rapidamente. É uma boa forma de olhar para o momento atual: o dinheiro voltou a ficar mais caro, a habitação continua inacessível para muitos e o mercado de trabalho pode perder parte do impulso que recebeu nos últimos anos.
O dinheiro voltou a ficar caro
O Banco Central Europeu voltou a subir as taxas de juro e a Reserva Federal norte-americana fez o mesmo esta semana, pela primeira vez desde 2023. O preço da energia voltou a pressionar a inflação e ninguém sabe ainda quanto tempo esta nova fase poderá durar.
Para Portugal, isto importa. Juros mais altos chegam às famílias através do crédito, às empresas através do financiamento e ao próprio Estado através do custo da dívida. Não precisamos de ser economistas para perceber o essencial: quando o dinheiro fica mais caro, sobra menos para consumir, investir e criar emprego.
Também os Estados Unidos vivem sob a pressão de uma dívida pública superior a 40 biliões de dólares. Pode parecer um problema distante, mas não é. A dívida americana continua a funcionar como referência para o preço do dinheiro no mundo. Quando os Estados Unidos pagam mais para se financiar, essa pressão acaba por chegar também à Europa.
E agora, depois do PRR?
Ao mesmo tempo, terminou o grande impulso extraordinário do PRR. Foram cerca de 22 mil milhões de euros que ajudaram a financiar escolas, centros de saúde, habitação, digitalização, eficiência energética e milhares de investimentos públicos.
Quem passou pelas autarquias nestes anos sabe o efeito concreto que isso teve. Uma obra pública não é apenas uma linha num orçamento. É uma empresa com trabalho, é emprego, é compra de materiais, é rendimento que circula na economia local.
O Banco de Portugal já antecipa uma desaceleração do crescimento em 2027, associada também ao fim do PRR e ao menor dinamismo do investimento. Não significa recessão. Significa apenas que desaparece um motor que ajudou significativamente a economia portuguesa nos últimos anos.
É aqui que deveria estar uma das principais preocupações do Governo: qual é o plano para o dia seguinte?
Mais despesa, menos margem
Há outro dado que não deve ser ignorado. A despesa corrente primária prevista para a Administração Central aumentou cerca de 23% entre 2023 e 2026. Nem todo este crescimento é responsabilidade do atual Governo e parte dele resulta de salários, pensões e prestações sociais. Mas o facto permanece: o Estado entra no pós-PRR com uma estrutura de despesa corrente mais pesada.
E a despesa corrente tem uma característica simples: é difícil de reduzir. Uma obra pode ser adiada; salários, pensões, escolas, hospitais e prestações sociais não podem.
Por isso, a verdadeira questão não é apenas saber se as contas públicas estão equilibradas hoje. É saber quanto espaço teremos amanhã para investir quando o financiamento é mais caro e os fundos extraordinários diminuem.

Trabalho, imigração e habitação
Também o mercado de trabalho pode mudar. Portugal viveu nos últimos anos com forte procura de trabalhadores na construção, turismo, agricultura, restauração e serviços. A imigração ajudou a responder a essa necessidade.
Se o investimento abrandar, essa procura pode diminuir. E será fácil cair numa conclusão enganadora: menos trabalhadores estrangeiros, menor pressão na habitação, logo o problema está resolvido.
Não está. Num país envelhecido, menos população ativa significa também menos contribuintes e maior dificuldade futura em financiar pensões e serviços públicos. Uma economia não fica necessariamente melhor porque precisa de menos trabalhadores. Pode simplesmente estar a crescer menos.
Na habitação acontece algo semelhante. Juros mais altos podem reduzir a procura, mas também encarecem a construção. E Portugal continua a ter um problema fundamental de oferta. Menos compradores e menos construção não significam automaticamente casas mais baratas. Podem significar apenas um mercado mais parado e jovens ainda mais longe de conseguir comprar ou arrendar uma casa.
As prioridades da política
É neste contexto que tenho dificuldade em compreender algumas prioridades políticas dos últimos meses. O Parlamento gastou tempo e energia com a ocultação do rosto em espaços públicos, com bandeiras em edifícios públicos e com sucessivas disputas identitárias.
Esses temas podem legitimamente ser discutidos. Mas um país também deve saber estabelecer prioridades.
Enquanto discutimos símbolos, terminou o PRR. Enquanto discutimos identidades, os juros voltaram a subir. Enquanto discutimos imigração quase exclusivamente como uma questão de ordem pública, continuamos sem uma reflexão suficientemente séria sobre as necessidades demográficas e económicas de Portugal.
A política não pode viver apenas daquilo que produz polémica imediata.
Preparar o futuro
Não estamos perante um novo 2008. O sistema financeiro é mais robusto, o emprego está mais forte e as contas públicas estão numa situação muito diferente. Seria errado criar alarmismo.
Mas seria igualmente errado ignorar a mudança de ciclo.
Portugal precisa de preparar o pós-PRR, acelerar o investimento que ainda pode ser feito através do Portugal 2030, mobilizar investimento privado, aumentar a oferta de habitação e proteger a capacidade de investimento das famílias e das empresas.
Acima de tudo, precisa de voltar a discutir crescimento, produtividade, educação, qualificação e coesão territorial.
O gelo ainda aguenta. Mas governar é precisamente perceber onde ele começa a ficar mais fino antes de partir.
O país não precisa de um Governo que apenas responda aos problemas do dia a dia. Precisa de um Governo que tenha uma ideia sobre o futuro. E, infelizmente, com a AD já se perderam dois anos.
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