02/07/2026, 9:57 h
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Opinião Sérgio Carvalho Religião
Novos Tempos
Celebramos, a 11 de julho, a memória de São Bento de Núrsia, Padroeiro da Europa. Mais do que recordar um grande santo do século VI, vale a pena perguntar: o que nos pode ensinar um monge que viveu há cerca de mil e quinhentos anos ao homem do século XXI?
À primeira vista, quase tudo parece diferente. São Bento nasceu num tempo marcado pela queda do Império Romano do Ocidente, pela instabilidade política, pelas invasões dos povos bárbaros, pelo declínio das instituições, pela insegurança social e por uma profunda crise cultural. O mundo que conhecia parecia desmoronar-se.
Também hoje muitos têm a sensação de viver numa época de transição. Não enfrentamos a queda de um império, mas assistimos ao enfraquecimento de muitas referências que durante séculos estruturaram a sociedade. Vivemos uma crise de confiança nas instituições, uma crescente polarização social e política, guerras às portas e dentro da Europa, incerteza económica, envelhecimento demográfico, desafios tecnológicos inéditos e uma cultura onde a velocidade, o consumo e o imediatismo parecem ocupar o lugar da reflexão e da esperança.
As circunstâncias são diferentes. A inquietação humana, porém, é surpreendentemente semelhante.
São Bento poderia ter optado pelo isolamento ou pela resignação. Em vez disso, escolheu construir. Enquanto muitos lamentavam o fim de uma civilização, ele lançou os alicerces de uma nova.
Os mosteiros beneditinos não foram apenas lugares de oração. Tornaram-se centros de cultura, de educação, de acolhimento, de agricultura, de inovação, de assistência aos pobres e aos peregrinos. Enquanto o mundo parecia fragmentar-se, São Bento ensinava a viver em comunidade. Enquanto predominava a violência, educava para a paz. Enquanto muitos destruíam, ele cultivava a vida.
A famosa máxima "Ora et Labora" (Reza e trabalha) continua a ser profundamente atual. Num tempo em que tantas pessoas vivem divididas entre o ativismo sem sentido ou a espiritualidade sem compromisso, São Bento recorda que a oração e o trabalho não são realidades opostas, mas complementares. A fé deve transformar a vida quotidiana e o trabalho deve ser vivido como serviço.
Outro ensinamento particularmente atual encontra-se na Regra de São Bento: a estabilidade. Num mundo marcado pela mobilidade permanente, pelas relações descartáveis e pela dificuldade em assumir compromissos duradouros, Bento propõe permanecer, criar raízes, cuidar das pessoas e dos lugares onde somos chamados a viver. A estabilidade não significa imobilismo; significa fidelidade.
Há ainda uma outra lição que merece ser redescoberta: a cultura do silêncio. Nunca a humanidade comunicou tanto e, paradoxalmente, nunca pareceu escutar tão pouco. Vivemos rodeados por notificações, opiniões instantâneas e informação permanente. São Bento ensina que só quem sabe fazer silêncio consegue discernir, escutar Deus, compreender os outros e encontrar a verdade sobre si próprio.
As diferenças entre os séculos VI e XXI são evidentes. Hoje dispomos de avanços científicos, tecnológicos e médicos que Bento nunca poderia imaginar. Vivemos em sociedades democráticas, globalizadas e altamente conectadas. Mas precisamente por isso, os desafios interiores permanecem. Continuamos a procurar sentido, paz, comunidade, esperança e verdade.
Porventura o maior legado de São Bento seja precisamente este: as grandes transformações da sociedade começam sempre pela transformação da pessoa. Ele não tentou conquistar o poder político nem impor reformas através da força. Formou pessoas. Criou comunidades. Educou consciências. E, quase sem o procurar, ajudou a reconstruir a Europa.
Num tempo em que esperamos frequentemente que todas as soluções venham dos governos, das instituições ou da tecnologia, São Bento lembra-nos que cada família, cada escola, cada paróquia, cada associação e cada cidadão pode tornar-se um pequeno mosteiro: um lugar onde se cultivam valores, se preserva a cultura, se acolhem as pessoas e se constrói esperança.
Possivelmente seja esta a grande atualidade do santo de Núrsia. Em vez de perguntar continuamente "quem vai mudar o mundo?", deveríamos começar por perguntar: "que mundo estou eu a ajudar a construir?"
Foi assim que São Bento respondeu à crise do seu tempo. Quiçá seja também assim que poderemos responder à da nossa época.
Sérgio Carvalho
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