07/02/2026, 0:00 h
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OPINIÃO
Por Manuel Maia
Era um drogado, muito drogado que tinha estado preso e lutava afincadamente para deixar o vício da droga. Nunca o conseguiu. Morreu pouco tempo depois de deixar este seu testemunho de vida, no Livro de Honra. Morreu com uma overdose.
Naquele dia estava drogado, tão drogado que foi preciso ajudá-lo a descer a escadaria íngreme, para ele muito íngreme, que dava acesso ao Salão. Paguei-lhe um café, na Confeitaria Império, só para ter pretexto de lhe pregar o meu sermão. Sermão que, como se viu, não serviu para nada; a não ser, para descargo da minha consciência. Foi nesse curto lapso de tempo que fiquei a saber que ele lutava afincadamente para deixar o vício, só que este já não o deixava a ele.
Não sei se a síntese que eu fiz do seu curto discurso, expresso nas poucas palavras deixadas no Livro de Honra, corresponde ao que ele pretendia dizer. Estou convencido que sim, depois da troca de palavras que tivemos durante o café. Durante pouco mais que o tempo que durou a tomar o café, apercebi-me que no fundo, bem lá no fundo do seu imo-peito, havia um bom coração. Mas um bom coração já corrompido pelo mal, ou seja, pelo vício da droga. Um coração que batia, atabalhoadamente, só por bater. Já sem vontade própria.

O indivíduo, em causa, apesar de não ser analfabeto, duvido que algum dia tenha lido os Analectos sobre Confúcio; Siddhartha, de Hermann Hesse ou qualquer livro de F. Nietzsche, autores que, aqui ou ali, a páginas tantas nos faziam crer que “Tudo o que é Bom faz Bem”. Hoje, a Ciência diz-nos que não é bem assim! Pelo contrário…
De rompante, perguntei-lhe se já alguma vez tinha pensado, a sério, deixar o vício da droga?! Deu-me uma resposta desconcertante: “Que sim, mas que Pensar Fazia Doer!” como quem diz: “quero, mas não posso!”. Ora, Nietzsche, em “A Gaia Ciência”, livro que me caiu, agora, nas mãos diz, exactamente, isso mesmo, por outras palavras, quais sejam: “A VIDA MAIS DOCE É NÃO PENSAR EM NADA”.
Quero deixar claro que li nas entrelinhas da frase do ex-recluso-drogado não uma apologia, isto é, qualquer tipo de defesa, louvor, elogio ou glorificação das prisões, mas sim, um veemente apelo a todos aqueles que tiveram a desdita de entrar neste antro de perdição que aproveitem este tempo de reclusão para reflectir, reabilitar e recuperar, de modo a reintegrarem-se na sociedade como homens-novos.
Escrevi esta crónica no dia 1 de Janeiro/26. Dia da Paz. Aproveito para desejar a todos, todos, todos um ano de Paz, Felicidade e muita Saúde.
(O autor escreve sem obedecer ao último Acordão Ortográfico)
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