25/01/2026, 0:00 h
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OPINIÃO
Por Joaquim António Leal
Cresci a ouvir dizer que vinham aí os russos, os comunistas, os maus da fita, os que comiam criancinhas ao pequeno-almoço e davam injeções atrás das orelhas aos velhinhos. Um dia, enquanto brincava com outros miúdos da minha aldeia, ouvi as mulheres a comentarem que vinha aí o russo, o que me fez correr imediatamente para casa a contar o perigo iminente à minha mãe. Ela riu-se e disse-me: “não temas, este russo é o sardinheiro da camioneta, e vende as sardinhas mais em conta”.
Nos últimos tempos, sob o pretexto da guerra na Ucrânia, repetiram-se as ameaças de que, vencida a Ucrânia, os russos (agora não comunistas mas capitalistas) viriam por aí abaixo para nos conquistarem.
A cantiga foi bem ensaiada, tanto pelos governantes da União Europeia como pelos patrões dos jornais e das televisões. Assim, sem contraditório, tornou-se fácil convencerem-nos a deixá-los gastar à tripa forra em armamento americano e para nos fazerem esquecer as consequências das sanções.
Note-se que os cortes nas compras à Rússia não só não a enfraqueceram – como se esperava – como ainda nos empobreceram, pois, entre outros malefícios, trocámos o gás russo pelo norte-americano, pagando este várias vezes mais caro do que o antigo.

Hoje, mais adulto, mais informado por canais não oficiais, reflito:
Os russos vão invadir a Europa? Mas se a Europa vai do oceano Atlântico até aos Urais, a grande maioria da população russa é europeia, não outra coisa, logo não faz sentido esta afirmação; e quanto ao historial de invasões, nunca a Rússia atacou a Europa ocidental, bem pelo contrário, foi esta que a invadiu (Napoleão Bonaparte, primeiro, e Hitler, depois, ambos sem sucesso).
Então em que se baseiam estes teóricos do mal russo para nos assustarem? Os norte-americanos (nossos aliados?), esses sim, merecem a nossa redobrada atenção. Basta recordarmos que, que longo dos tempos, invadiram e promoveram golpes de estado em todos os continentes e que, recentemente, começam a ameaçar conquistar a Gronelândia à Dinamarca (país europeu).
Será que, a seguir, não vão querer apropriar-se da base das Lages nos Açores, só porque sim?
Cuidado! Talvez ainda tenhamos de pedir ajuda aos russos para nos defendermos das agressões. Vêm aí os americanos, e, ao contrário do russo da minha infância, não vêm com uma carrinha a vender sardinhas mais baratas que o homem da carroça.
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