28/03/2026, 9:45 h
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Educação Opinião ROSÁRIO ROCHA
EDUCAÇÃO
Por Rosário Rocha (Professora do AE Frazão)
Monodocência
A monodocência é o regime pedagógico que vigora na Educação Pré- Escolar e no 1º Ciclo, em que o professor titular é responsável por todas as áreas de aprendizagem e disciplinas da turma. É verdade que no 3º e 4º ano a monodocência já não é “pura”, pois o inglês é dado por docente específico, mas as restantes disciplinas estão todas ao encargo do professor titular de turma. Cada docente leciona as 25h letivas com o mesmo grupo, ou seja, com os mesmos alunos. E, se há quem seja defensor do fim da monodocência, também já aqui me pronunciei que sou contra.
Os estudos sobre o Desenvolvimento da criança são claros na necessidade dos vínculos emocionais em crianças mais novas. Quando se fala na junção entre o 1º e 2º ciclo, sou claramente a favor da aproximação do 2º ciclo ao modelo pedagógico do 1º ciclo ou seja, na redução de professores por turma e na atribuição de várias disciplinas a cada docente. Evitava-se que cada professor tivesse 1, 2 ou 3h por semana com uma turma e acumulasse mais de uma centena de alunos, o que torna difícil decorar o nome, quanto mais conhecer verdadeiramente cada aluno.
Essa é a vantagem da monodocência: conhece o aluno como um todo. E quando se fala em todo, é mesmo isso: na vida escolar e na social. Consegue-se mais facilmente compreender o estado de espírito, as condicionantes… O vínculo emocional de alunos pequenos com os seus docentes é diferente, sem dúvida; é a transição (e frequentemente a substituição) da família. Obviamente crianças de 3, 4, 5 ou até 8 anos têm outras necessidades afetivas que não têm “jovens” acima dos 12 anos. É fácil perceber isso enquanto pais: filhos mais novos procuram colo e beijos…e uns anos mais tarde até ficam envergonhados se lhes queremos dar.
Defendo a monodocência para os primeiros anos. Defendo-a porque a acho importantíssima e não quero que nenhuma criança seja um número. Defendo-a porque adoro saber que sou um pouco “mãezinha” dos miúdos. É muito bom vê-los desabrochar e dar os primeiros passos na vida académica e ver a sua evolução enquanto cidadãos! Contudo, “não há bela sem senão”...

Exaustão na monodocência
Num inquérito nacional realizado aos docentes em monodocência, os mesmos relatam falta de reconhecimento e desigualdade no regime de trabalho, bem como há uma forte evidência de exaustão profissional.
O que se sente na Educação Pré- Escolar e no 1º ciclo é que além das funções pedagógicas exigentes nessas faixas etárias, há uma acumulação com muitas outras, nomeadamente administrativas e assistenciais.
Sabemos que além de ensinar e desenvolver competências, o trabalho com crianças mais novas exige muito trabalho emocional. Todo o educador ou professor “primário” tem que ser um pouco psicólogo, médico/enfermeiro. Ninguém ensina bem se a criança não está emocionalmente estável e, às vezes, só é necessário ouvi-la e desconstruir algumas inseguranças que traz do ambiente social ou familiar.
Não obstante a criança, as famílias também procuram muito os docentes e sabemos que a articulação família-escola nos primeiros anos é muito frequente, seja pessoalmente, seja através do contacto telefónico. “Cada criança é um pequeno mundo”.
De forma sintética: a pressão dos extensos currículos, a necessidade de conhecer cada “pequeno mundo individual”, de trabalhar de forma específica com cada um, de responder às famílias, de viver de forma muito próxima todos os problemas das crianças e das famílias- o desgaste psicológico e emocional é enorme!
Acumulam-se às tarefas descritas anteriormente as burocráticas: papéis e papeizinhos, mapas, grelhinhas, relatórios (é só mais um…e no fim parecem enciclopédias!). Tudo isto feito após a escola, e quando ainda é necessário preparar material diferenciado e interessante para o mais importante- as aulas!
Claro que haverá quem não perca muito tempo nessas coisas, mas quem gosta do que faz, e quem o faz com brio e dedicação, desgasta! E esgota mentalmente- e, por isso entendo que o inquérito nacional tenha detetado exaustão nos docentes em regime de monodocência.
E essa exaustão preocupa-me pois não beneficia, de todo, o sistema educativo.
Reivindicação dos docentes
O horário de trabalho semanal do professor em monodocência é superior ao dos outros docentes. Tendo em conta o horário e as especificidades deste regime, tem sido reivindicado que haja o reconhecimento por parte do governo da monodocência como profissão de “desgaste rápido”. Considera-se que as exigências da faixa etária com que se trabalha e o elevado desgaste deveriam permitir um regime especial de aposentação.
Vamos ser sinceros: consideram que um docente acima dos 60 anos consegue andar com crianças ao colo (e elas precisam disso nos primeiros anos), consegue facilmente apertar cordões de sapatilhas ou andar dobrado em cima dos alunos, a pegar nas suas mãozitas, para melhorar a sua motricidade? Não é fácil… mas se não se conseguirem fazer essas tarefas, acreditem que a parte pedagógica fica comprometida. São os tais vínculos com crianças pequenas.
E por isso se pede um regime de aposentação especial aos 60 anos. O que não interessa é ter docentes exaustos no sistema de ensino, principalmente na faixa etária que é o alicerce de todo o percurso. Docentes exaustos acabam por sobrecarregar o sistema de ensino e cansar também os colegas que não estão exaustos, pois tentam aliviar um bocadinho os que já não conseguem “dar muito mais”.
A Sociedade deveria mobilizar-se no apoio a um sistema educativo saudável. Deveria haver empatia e reconhecimento…mas também isso se está a perder… Não está fácil…
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