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Gazeta Paços de Ferreira

28/06/2026, 0:00 h

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ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DA CADEIA DA RELAÇÃO DO PORTO – (I)

Manuel Maia Opinião

OPINIÃO

Por Manuel Maia

 

Sobre o assunto em epígrafe trago hoje à baila um artigo de opinião escrito pela Drª Ilda Figueiredo, economista e, na altura, vereadora da CDU na CMP. O artigo, com o título “Cadeia da Relação do Porto – que futuro?”, publicado no J.N. em 2/11/1996 que, mais adiante saberão porque o trago hoje aqui, dizia assim:

 

“As indecisões em torno da utilização do edifício são uma das vertentes das tendências dominantes na política cultural do país, que tem oscilado entre uma concepção patrimonialista da cultura, ou ausência de política cultural, e as políticas de oferta e gestão cultural, numa época em que domina a mercantilização e se impõe o valor simbólico da cultura para certos estratos populacionais.

 

1 – Foi assim que, no tempo de Santana Lopes, a Cadeia da Relação esteve destinada à Universidade Católica e com o actual governo parece ir servir para instalar o futuro Centro Português de Fotografia. Sendo óbvias as diferenças das propostas em relação à utilização de tão importante edifício, as dúvidas persistem quanto aos métodos e processos relativos à decisão final, se é que já está completamente definida, e à dinamização do uso do espaço, é que, apesar de estarmos num tempo em que se instalou o pragmatismo dominado pela mercantilização e pelo valor simbólico da cultura, é necessário contrapor uma política de democracia cultural, o que requer que se considere a cultura numa perspetiva tão ampla quanto possível, dando prioridade ao homem, ao seu conhecimento e criatividade individual e colectiva. Não basta facilitar a criação cultural e, portanto, democratizá-la. É também necessário estimular a criatividade e a expressão de todos os grupos sociais. Como assinalou o Conselho da Europa já nos anos setenta, a cultura é mais que um bem de consumo, é um meio de desenvolvimento colectivo.

 

Ora, se caminharmos na direcção de uma política de democracia cultural, é fundamental abrir a discussão em torno da utilização da antiga Cadeia da Relação do Porto, ter em conta a opinião daqueles que, como Artur Costa, pensam que “a Cadeia é inimaginável sem as histórias que lhe deram vida”, e que são parte da história da cidade e do imaginário popular. Revitalizar aquele espaço passa por dar vida ao motim dos taberneiros que o Marquês de Pombal afogou em sangue; sublinhar as lutas liberais, de que o Porto justamente se orgulha, e dos revoltosos de 31 de Janeiro; reviver os amores de Camilo e Ana Plácido; alimentar as lendas do Zé do Telhado e de tantos outros que por ali passaram.

 

 

 

 

2 – Já é tempo de voltarem para o Porto os espólios fotográficos de Domingos Alvão e da Foto Beleza. Nada justifica a manutenção da centralização cultural, mesmo que em nome da defesa do património fotográfico, e mal se percebe que intelectuais se insurjam contra a hipótese de o Porto ter um arquivo fotográfico com o espólio dos seus artistas. Como é que Fernando Rosas pode escrever que “não é imaginável que os investigadores, jornalistas e todo o tipo de actuais utentes dos arquivos fotográficos públicos de Lisboa tenham de passar a ir ao Porto para realizar as suas consultas”? Será que já alguma vez admitiu que no Porto também possa haver jornalistas, investigadores e outros curiosos interessados em consultar arquivos fotográfico? Será tão difícil perceber que fora de Lisboa também existe um país? O centralismo deixou marcas mais profundas do que às vezes se imagina.

 

3 – A utilização da Cadeia da Relação pode e deve ser multidisciplinar, numa perspetiva de democracia cultural. Local privilegiado para revitalizar as suas histórias, que são memórias do Porto, da região e do país, ali tem cabimento algo como um museu da literatura, com lugar de destaque para Camilo e Ana Plácido, ao lado da história das lutas da cidade que a cadeia viveu, e que podem ser a base para um núcleo de estudos de sistemas prisionais, bem como um arquivo fotográfico, a começar com com espólio de Domingos Alvão e da Foto Beleza.

 

O projecto de utilização da Cadeia deve incluir espaços para a animação cultural permanente, abertos à participação das crianças e jovens das escolas, associações e grupos diversificados, interessados na realização de palestras, exposições temporárias e visitas de estudo, ou na criação directamente ligada ao espólio e à sua história, recriando factos, enriquecendo a zona histórica, de que é parte integrante, revitalizando a cidade.

 

O que não é admissível é que se arraste por mais tempo a inutilização de um espaço tão precioso para o Porto. É tempo de os portuenses se reencontrarem com uma parte fundamental da história da cidade que a Cadeia da Relação representa.

 

(Continua no próximo número)

 

 

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