29/10/2026, 16:27 h
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NOVOS TEMPOS
Há uma pergunta que me acompanha nesta altura do ano: como conseguimos mobilizar tanta criatividade para celebrar o Halloween e tão pouca para transmitir as tradições que recebemos?
Multiplicam-se as abóboras, as teias de aranha, os chapéus de bruxa e as máscaras de terror. Nas escolas, preparam-se atividades e desfiles. E, quando a mesma animação chega aos centros paroquiais e à catequese, a pergunta torna-se ainda mais incómoda: sabemos o que estamos a celebrar? Sabemos, também, o que estamos a deixar de ensinar?
Não vejo qualquer problema em conhecer costumes de outros povos. Uma cultura cresce também no encontro. Mas esse encontro exige memória e espírito crítico. Quando acolhemos com entusiasmo tudo o que vem de fora e deixamos morrer, por desinteresse, aquilo que nos pertence, estamos a empobrecer a nossa capacidade de escolher.
O Halloween que hoje nos chega, sobretudo através da indústria comercial e do entretenimento anglo-americano, apresenta-se frequentemente como um carnaval fora de época. Muda o calendário, acrescenta-se uma estética de susto e renova-se o convite a comprar: fatos, acessórios, decorações, guloseimas. A festa parece precisar cada vez mais de uma loja e cada vez menos de uma comunidade.
Entretanto, o Pão por Deus vai perdendo lugar na experiência de muitas crianças. A tradição de percorrer as ruas, bater à porta dos vizinhos, dizer os versos e receber pão, broas ou frutos secos transporta uma riqueza que merece ser explicada. Há ali encontro entre gerações, hospitalidade, gratidão e partilha. Há uma comunidade que abre a porta.
Também o cantar das Almas e outras expressões de oração pelos defuntos, com os seus calendários e particularidades regionais, pertencem a um património que importa conhecer. Não são todas a mesma tradição, nem acontecem necessariamente nos mesmos dias. Mas testemunham uma relação com a memória, com a morte e com a esperança que não cabe numa decoração de plástico.
A própria palavra Halloween guarda uma ironia: deriva de uma expressão que significa «véspera de Todos os Santos». O nome conserva uma referência cristã que a festa comercial frequentemente já não explica.
Convém, contudo, sermos rigorosos: a festa de Todos os Santos continua a ser uma solenidade cuja celebração começa na tarde anterior, com as primeiras Vésperas. Não ter uma Missa própria da vigília é uma questão diferente. A crítica ao esvaziamento cultural e religioso desta época ganha força quando assenta na verdade.
É precisamente esse esvaziamento que me preocupa. Celebramos os santos, homens e mulheres que fizeram do amor uma forma concreta de viver. Recordamos os defuntos, agradecemos a sua passagem pela nossa vida e rezamos por eles. Existe aqui uma oportunidade educativa imensa: falar da bondade, da saudade, da solidariedade, do sentido da vida e da esperança cristã.
Nas escolas, conhecer o Halloween pode integrar uma aprendizagem sobre outras culturas. Mas que coerência existe em dar-lhe grande destaque enquanto se ignora o património da terra onde os alunos vivem? Quantas crianças conhecem os versos do Pão por Deus? Quantas tiveram oportunidade de perguntar aos avós como se viviam estes dias?
Nos centros paroquiais e na catequese, a responsabilidade é ainda mais clara. Se organizamos uma festa de Halloween, que relação estabelecemos com Todos os Santos? Que mensagem transmitimos? Que espaço damos ao testemunho dos santos e à oração pelos que morreram?
As crianças gostam de brincar e de se mascarar. Merecem também adultos capazes de lhes oferecer conteúdo, memória e razões para celebrar.
Podíamos preparar o Pão por Deus, fazer broas, recuperar versos, ouvir os mais velhos, conhecer tradições locais e organizar uma partilha com famílias que precisam. Podíamos apresentar a vida de um santo de forma criativa, conversar sobre alguém de quem sentimos saudades e aprender a rezar por essa pessoa.
Tudo isto pode ter alegria. Tudo isto pode envolver as crianças. Tudo isto pode criar memórias que durem mais do que uma fotografia com um disfarce.
As tradições sobrevivem quando alguém as pratica, explica e transmite. Se deixamos de o fazer, não podemos depois lamentar que os mais novos já não as conheçam.
Antes de comprarmos mais uma máscara, talvez valha a pena abrir a porta ao Pão por Deus.
Sérgio Carvalho
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