31/10/2026, 0:00 h
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OPINIÃO
Por Celina Pereira
As imagens da intervenção policial e municipal na remoção forçada das tendas de protesto no Porto são um retrato fiel desta triste máxima. Cidadãos e ativistas, reunidos pacificamente contra a escalada vergonhosa dos preços da habitação, foram brindados com o braço muscular do poder local e das forças de segurança. Aparentemente, em Portugal, ter a ousadia de montar uma tenda de pano para pedir rendas justas é uma ameaça gravíssima à ordem pública que exige uma prontidão militar.
Sob o pretexto sagrado da “defesa do espaço público”, a resposta da Câmara e da polícia não foi a escuta nem o diálogo, mas sim o despejo muscular. Curiosa forma de gerir a cidade: perdoa-se a especulação imobiliária que expulsa famílias inteiras das suas casas, mas mobiliza-se a força pública para limpar da vista da cidade quem protesta contra isso. Afinal, a miséria e a indignação incomodam o postal turístico.
Surge assim a pergunta inevitável: se o Estado reage com este músculo todo perante a serenidade de cidadãos indefesos, o que faria se estivesse perante a combatividade com que os franceses respondem a crises semelhantes? Em França, um protesto destes já teria parado o país. Por cá, impera a nossa tradicional pacatez, aquele civismo exemplar de quem exige dignidade sem partir um único vidro. Mas o poder político, em vez de valorizar esta maturidade, prefere tratá-la com arrogância e excesso de autoridade, contando com o silêncio dos mansos.

Lembrem-se os senhores do poder: a habitação não é um privilégio de luxo, é um direito constitucional. Quando pagar a renda se torna uma missão impossível, o protesto deixa de ser política de bancada e passa a ser um grito desesperado de sobrevivência.
Em vez de mandar a polícia "arrumar a casa", caberia aos responsáveis políticos ter a modesta humildade de se sentarem à mesa e conversarem. O que degrada e envergonha as nossas cidades não são as tendas de quem não tem para onde ir, mas a indiferença de quem governa e a ganância de quem lucra com o desespero alheio. Se o poder continua a fechar as portas ao diálogo com quem é pacífico, não se admire depois quando a pacatez portuguesa finalmente esgotar a paciência.
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