25/03/2026, 0:00 h
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CULTURA
Por Abílio Travessas (Colunista e Professor aposentado)
António Pigafetta – nascido, provavelmente, em Veneza, de família patrícia – foi um dos dezoito que regressou a Sanlúcar em Setembro de 1522; é autor da crónica mais conhecida e celebrada da expedição. Contratado por Magalhães como supranumerário para cronista oficial da viagem (há outras fontes : “O Jornal de bordo” de Francisco Albo, o piloto da Victoria que a conduziu até Sevilha ; “A Relação de Ginés de Mafra” que foi marinheiro na Trinidad; “A Carta de Maximilianus Transylvanus”, com as informações dadas por Elcano e marinheiros que regressaram com ele) o conhecimento da epopeia não seria o que chegou até nós sem o seu livro, muito divulgado nas cortes europeias.
Pigafetta deixou-nos testemunho dos povos que foram contactando, dos seus costumes, que espantaram os europeus quando não escandalizaram, principalmente no que ao sexo respeitava. É considerado o primeiro antropólogo pelas anotações não apenas dos hábitos mas também deixando palavras quer dos guaranis, do Rio de Janeiro, dos tehuelche, da Patagónia ou dos chamorros das ilhas do Pacífico.

No Rio de Janeiro, palavras de Pigafetta: “Os homens davam-nos uma ou duas das suas jovens filhas como escravas por uma machadinha ou uma faca grande, mas não nos davam as suas mulheres em troca de qualquer coisa. As mulheres… recusam-se a entregar-se aos maridos de dia, mas só de noite”. A noção do valor das coisas que os marinheiros trocavam com os indígenas era surpreendente: “Por um pequeno espelho ou um par de tesouras deram-nos tantos peixes quantos dez homens poderiam ter comido. E por um Rei das cartas de jogar deram-nos cinco aves de capoeira e ficaram mesmo a pensar que me tinham enganado”. Note-se que estes povos se encontravam ainda na idade da pedra, não conheciam os metais, daí o elevado valor que lhes davam. Episódio significativo é o que se conta a seguir, segundo Pigafetta. Interessante é relevar as traduções diferentes de um episódio descrevendo como uma guarani guardou “um prego maior do que um dedo” que encontrou no convés do navio-almirante onde o cronista se encontrava com o capitão-general. “Pegando nele com muito deleite e cuidado, introduziu-o entre os lábios da sua vagina e, curvando-se sobre si, imediatamente se foi embora”. Na tradução brasileira: (cujo livro, na capa, além da representação da luta final entre Magalhães e Lapu Lapu, tem uma frase de Gabriel Garcia Marquez: O meu livro de cabeceira) “Prende-o suavemente entre os lábios da sua natureza e, subitamente, salta para a coberta e foge”.
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