12/09/2026, 10:24 h
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Opinião Opinião Politica Política
OPINIÃO POLÍTICA
Por Filipe Rodrigues Fonseca (Engenheiro Informático e Dirigente do Livre Vale do Sousa)
Há momentos em política em que aquilo que ocupa mais espaço não é necessariamente aquilo que mais importa. A moção de censura apresentada pelo Chega ao Governo é um desses casos. Um instrumento legítimo da democracia tornou-se o centro da atenção pública, enquanto os problemas concretos do país continuam à espera de respostas.
Convém, desde logo, não confundir escrutínio com espetáculo. O Governo deve ser escrutinado e deve responder pelas suas escolhas, sobretudo quando estão em causa a confiança nas instituições, a transparência e a responsabilidade política. Nunca poderíamos aceitar que a maioria parlamentar ou a estabilidade governativa sirvam de desculpa para fugir a esse escrutínio. Mas não podemos aceitar que a política seja reduzida a crises sucessivas para alimentar ciclos noticiosos. Uma democracia saudável precisa de oposição exigente, não de oposição que transforme cada conflito numa oportunidade de protagonismo.

O problema torna-se ainda maior quando a extrema-direita consegue impor os termos do debate. Ao colocar toda a agenda política em torno de uma moção de censura, o Chega consegue deslocar o centro da discussão para a sua narrativa, obrigando os restantes partidos a reagir às suas prioridades. Enquanto discutimos quem disse o quê, ficam para trás questões que determinam verdadeiramente a vida das pessoas: a habitação incomportável, os salários que não acompanham o custo de vida, os serviços públicos pressionados, a emergência climática, a precariedade e as desigualdades que atravessam o país. É aí que a política deve recuperar o seu sentido.
A resposta dos partidos não pode ser correr atrás da agenda do Chega. Deve ser apresentar propostas, fiscalizar o poder e disputar o futuro. A extrema-direita cresce quando convence as pessoas de que a política é apenas indignação, confronto e medo. Combate-se essa lógica mostrando que existem alternativas concretas e transformadoras, capazes de melhorar a vida das pessoas sem procurar inimigos para tudo.
A moção de censura passará, ocupará manchetes e, provavelmente, será substituída por outra polémica dentro de poucos dias. Mas os problemas do país permanecerão. É por isso que não podemos permitir que a agenda política seja definida por quem grita mais alto. Portugal precisa de menos espetáculo e mais democracia; menos indignação performativa e mais soluções. E precisa, sobretudo, de uma política que volte a falar daquilo que verdadeiramente importa: a vida das pessoas e o país que queremos construir.
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