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Gazeta Paços de Ferreira

16/07/2026, 16:40 h

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Quando o futebol se torna religião

Opinião Sérgio Carvalho Religião

Novos Tempos

Contudo, recorda que o desporto deve formar campeões de humanidade antes de campeões de títulos. Amar um clube é legítimo; fazer dele um ídolo não. Vibrar por uma vitória é saudável; esquecer que a pessoa vale infinitamente mais do que qualquer troféu é perder a verdadeira medida das coisas.

O filósofo Gilles Lipovetsky descreve a sociedade atual como a cultura do efémero: tudo é intenso, imediato e rapidamente substituível. Também o desporto, especialmente o futebol, não escapa a esta lógica. O que nasceu como jogo, espaço de encontro e escola de virtudes pode facilmente transformar-se num dos grandes cultos seculares do nosso tempo.

 

A Igreja nunca condenou o desporto, antes pelo contrário. O Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes, 61), o Compêndio da Doutrina Social da Igreja e os Papas apresentam-no como uma verdadeira escola de humanidade, capaz de educar para a disciplina, a solidariedade, o respeito pelas regras e a amizade entre os povos. São João Paulo II chamou-lhe «alegria de viver»; Bento XVI recordou que deve estar sempre ao serviço da dignidade humana; o Papa Francisco insistiu que o importante é formar pessoas antes de formar campeões.

 

O problema começa quando o desporto deixa de ser um meio e passa a ocupar o lugar de um absoluto. O Catecismo da Igreja Católica recorda que a idolatria consiste em atribuir a uma realidade criada o lugar que pertence apenas a Deus (CIC, 2113).

 

É impossível não sorrir perante algumas ironias do futebol moderno. Os estádios tornam-se autênticas catedrais; as camisolas parecem paramentos; as cores distinguem quase uma pertença religiosa; os hinos são entoados como cânticos litúrgicos; as peregrinações aos grandes jogos mobilizam multidões; os ídolos recebem uma veneração que, por vezes, ultrapassa a admiração desportiva. Naturalmente, o futebol não é uma religião. Mas pode tornar-se um culto quando absorve a identidade da pessoa e ocupa o centro da sua existência.

 

Também o mercado das transferências revela os riscos da cultura do efémero. Jogadores negociados por centenas de milhões de euros tornam-se ativos financeiros, avaliados mais pelo seu preço do que pela sua dignidade. Ora, a Doutrina Social da Igreja recorda que a pessoa nunca pode ser reduzida a mercadoria ou instrumento económico.

 

São Paulo utilizou frequentemente a imagem do atleta para falar da vida cristã: enquanto o desportista corre por «uma coroa corruptível», o cristão procura «uma incorruptível» (1 Cor 9, 24-27). O esforço, a disciplina e a perseverança são virtudes comuns, mas a meta última é diferente.

 

É precisamente este equilíbrio que encontramos no Papa Leão XIV. Apaixonado pelo desporto e apreciador do futebol, vê nele uma linguagem universal de encontro e fraternidade. Contudo, recorda que o desporto deve formar campeões de humanidade antes de campeões de títulos. Amar um clube é legítimo; fazer dele um ídolo não. Vibrar por uma vitória é saudável; esquecer que a pessoa vale infinitamente mais do que qualquer troféu é perder a verdadeira medida das coisas.

 

O desafio não é combater o futebol, mas libertá-lo da idolatria. O desporto pode educar, unir e promover a paz. Mas nenhuma taça salva, nenhum campeonato redime e nenhum jogador responde às inquietações mais profundas do coração humano. Como escreveu Santo Agostinho, «o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti». Talvez seja esta a maior vitória: desfrutar do jogo sem esquecer que só Deus merece verdadeiramente o nosso culto.

 

 

Sérgio Carvalho

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