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Gazeta Paços de Ferreira

08/11/2026, 0:00 h

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Um retrocesso de 52 anos?

Opinião Opinião Politica Partido CDS/PP

OPINIÃO POLÍTICA

Os acontecimentos dos últimos dias relacionados com os protestos pela habitação levantam uma questão inquietante: estaremos a assistir a um retrocesso democrático que julgávamos impossível?

Por Óscar Leal (Deputado da AM Paços de Ferreira pela coligação MAIS)

 

Dizem-nos constantemente que vivemos numa democracia madura, consolidada e saudável. Mas quando surgem manifestações que fogem ao guião habitual, parece que alguns responsáveis políticos ficam subitamente desconfortáveis.

 

Ao que tudo indica, o problema não é o protesto. O problema é a forma do protesto.

 

Manifestem-se. Protestem. Discordem.

 

Mas façam-no da maneira certa, no local certo, durante o tempo certo e, de preferência, sem causar qualquer incómodo a quem governa.

 

Uma manifestação que não incomoda ninguém acaba por ser uma espécie de evento cultural patrocinado pelo poder.

 

O Ministério da Administração Interna e o Primeiro-Ministro demonstraram uma enorme dificuldade em lidar com uma realidade simples: nem todos os protestos cabem dentro de um horário administrativo.

 

A resposta foi conhecida. Polícias de intervenção. Cães. Remoção de tendas. Operações realizadas durante a madrugada.

 

Tudo isto para lidar com cidadãos que, goste-se ou não das suas ideias, estavam maioritariamente sentados em tendas e não a destruir património público.

 

Confesso que fiquei impressionado.

 

Durante anos ouvimos dizer que o Estado não tinha meios para controlar tanta coisa. Pelos vistos, para remover tendas às três da manhã os meios aparecem milagrosamente.

 

Mas a melhor parte estava guardada para depois.

 

 

 

 

Entretanto, surge uma decisão judicial que lança sérias dúvidas sobre a alegada ilegalidade daquelas "acampadas".

 

Afinal, aquilo que foi apresentado como uma evidência absoluta talvez não fosse assim tão evidente. Curioso.

 

Primeiro mobilizam-se meios policiais, justificam-se intervenções musculadas, apontam-se ilegalidades. Depois descobre-se que afinal a questão pode não ser tão simples.

 

Como são misteriosos os caminhos da certeza absoluta. E agora? Quem vai assumir responsabilidades?

 

Quem vai explicar aos cidadãos que talvez a realidade fosse mais complexa do que os discursos inflamados deixavam transparecer?

 

O problema para o Governo não são as tendas.

 

O problema é aquilo que elas simbolizam.

 

Porque uma tenda desmonta-se em poucos minutos.

 

Já o descontentamento que a levantou é bastante mais difícil de remover.

 

E talvez seja exactamente aí que reside a verdadeira preocupação.

 

Porque quando um Governo começa a sentir-se mais incomodado pela forma do protesto do que pelas razões que lhe deram origem, é legítimo perguntar se não estaremos, de facto, a caminhar na direcção errada.

 

 

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